O Luxo em xeque: fragilidade ou resiliência?
- Mirella Matos
- há 3 dias
- 3 min de leitura
Você provavelmente já se deparou com vídeos ou posts que colocam em dúvida a reputação das marcas de luxo. Informações soltas, muitas vezes fora de contexto, circulam nas redes sociais e provocam reações de repulsa ou incredulidade.
E é justamente por isso que eu quis trazer uma visão mais ampla — para que a gente possa entender que há uma confluência de fatores globais atuando diretamente sobre o que o mercado de luxo tem enfrentado.
Será esse o seu fim?
Nos últimos tempos, pessoas de dentro e fora do universo de influência começaram a expor defeitos — simples ou grotescos — em produtos que prometem excelência. E é claro: diante de preços tão elevados, a expectativa por uma produção 100% artesanal, europeia e impecável é legítima.
O descompasso entre o valor simbólico e o valor percebido reacende debates sobre autenticidade e transparência no universo do luxo.
Como se não bastasse, vídeos no TikTok escancaram a presença de fornecedores chineses na cadeia produtiva de maisons associadas à excelência artesanal francesa e italiana. Isso expõe as entranhas de um sistema historicamente envolto em aura, desejo e silêncio.
Ao mesmo tempo, assistimos à retomada da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Com Donald Trump de volta à presidência, tarifas de até 145% foram impostas sobre produtos chineses — sob a promessa de reestruturar por completo as relações comerciais.
Coincidência ou não, o “exposed” da produção chinesa veio logo após esse anúncio. Eu estaria invertendo a ordem dos acontecimentos? Ou tudo isso faz parte de um tabuleiro bem maior?
O fato é que esse embate entre potências globais impacta diretamente o setor de luxo — que depende de uma cadeia produtiva internacional, de estabilidade cambial e, acima de tudo, de uma imagem imaculada.
Mas será esse um sinal de fragilidade do luxo?
Talvez sim — mas dentro de uma lógica própria ao luxo. Porque nesse universo, fragilidade e força não são opostos: elas coexistem em um equilíbrio estratégico.
Historicamente, o luxo já foi testado muitas vezes — e não apenas sobreviveu, mas se reinventou. Marcas como Hermès, Louis Vuitton e Lanvin atravessaram tanto a Primeira quanto a Segunda Guerra Mundial.
Durante a Segunda Guerra, Chanel chegou a fechar suas atividades de alta-costura, enquanto Hermès adaptava seus produtos à escassez de couro, e Balenciaga criava peças que respeitavam as limitações do tempo de guerra (não deixem de assistir à série The New Look).

Nos anos 1990 e 2000, o crescimento acelerado dos mercados asiáticos exigiu das marcas uma adaptação às novas culturas e públicos — sem perder a essência europeia.
Na crise financeira de 2008, enquanto muitas empresas encolhiam, o luxo investia no simbólico, na durabilidade emocional, e na promessa de permanência.
Durante a pandemia de 2020, com lojas fechadas e fronteiras suspensas, elas apostaram no digital e na experiência. Cafés Dior, hotéis Bulgari, spas da Chanel. O luxo saiu das vitrines e ocupou espaços sensoriais, íntimos, memoráveis.
Ou seja: o luxo não é frágil. Ele é adaptável.
E hoje, diante da exposição dos bastidores e da instabilidade geopolítica, as maisons reagem com o que sempre fizeram de melhor:
criar desejo.
Estamos vendo uma clara expansão para além do produto: hospitalidade, turismo, lifestyle.
Não basta mais ter uma bolsa — é preciso viver dentro da marca.
A Dior quer que você tome um café como uma princesa em Paris.
A Gucci quer que você se hospede como um criador em Florença.
A Louis Vuitton quer te oferecer arte, música e viagem — tudo sob o mesmo monograma.



Esse movimento do objeto para a experiência talvez seja a grande cartada das marcas de luxo para continuar relevantes num mundo em constante ebulição.
Porque o luxo, no fim das contas, é — e sempre foi — uma narrativa.
E por mais que mudem os cenários políticos, as crises econômicas, as tecnologias ou as redes sociais, o ser humano ainda deseja pertencer a uma história maior.
As marcas de luxo sabem disso. Elas dominam como poucas o savoir faire de se reinventar. São, inclusive, cases estudados nas melhores escolas de negócios.
E esta é só mais uma crise que, como tantas outras, vai passar.
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